Entrevista exclusiva: Emília Silveira, diretora de Setenta, fala sobre cinema, ditadura e História do Brasil

Chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 29 de maio, o documentário nacional Setenta. O título se refere ao grupo de setenta jovens brasileiros que se tornaram presos políticos em 1970 por causa do sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, e foram enviados ao Chile após uma tensa negociação com o governo militar.
Cerca de quarenta anos depois, a diretora Emília Silveira – ela mesma uma ex-presa política – decidiu conversar com vinte destas pessoas, para saber como se lembram da época. A intenção, de acordo com a cineasta, não é fazer um filme histórico, mas um mosaico de lembranças pessoais sobre esse período sombrio da História do país.
Emília Silveira conversou em exclusividade com o AdoroCinema sobre o projeto e sobre as dificuldades encontradas pelo caminho. Confira:
"O projeto nasceu dez anos atrás, quando eu encontrei um amigo, que era um dos setenta. Ele me disse que o grupo era eclético, complexo, e que se reunia sempre. Eu fui a uma dessas reuniões e gravei. Dias depois, comentei sobre essa história com outro amigo meu, ele me disse que conhecia um filme dos anos 1970 sobre esse caso. Aí eu achei que era coincidência demais! Eu corri atrás dessas imagens, era um filme do Haskell Wexler, um grande fotógrafo americano, e do Saul Landau, chamado Brasil: A Report on Torture.
Eu comecei a me reunir com esse pequeno grupo dos setenta, e chamei a minha amiga e repórter Sandra Moreira. Como eu sou ex-presa política, eu não queria fazer um filme sobre o meu umbigo, e precisava de alguém para me dizer “não”, para fazer isso comigo. Essa não é a minha história, é a história da minha geração. Eu quis tratar dessa questão que o Brasil tratou pouco. Esta questão não é histórica, mas sobre as pessoas. Quem eram esses jovens, que viveram a revolução, entraram numa guerra, perderam e deram a volta por cima?"
"Eu assisti a praticamente todos os filmes que existem no Brasil sobre [a ditadura]. São filmes extremamente bons, mas sempre de um ponto de vista ideológico, com alguém que parte de uma ideia pronta para fazer um filme a partir disso. O que eu queria, é que o filme penetrasse nessas almas, nessas pessoas, e que surgisse desse contato entre a câmera e aquelas vidas. Eu não sabia o que seria o filme. Eu não tinha uma ideia preconcebida, eu só sabia que eu não queria vitimizar ninguém, nem convencer ninguém de nada".
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