Olhar de Cinema 2015: Já pensou em um filme rodado e exibido em formato de tela circular?

Chama-se Lucifer (Lúcifer) o terceiro filme do cineasta belga Gust Van Den Berghe (Pássaro Azul), para o qual o diretor de fotografia do longa-metragem, uma coprodução com o México, Hans Bruch Jr., inventou uma técnica de captação/ projeção da imagem chamada "Tondoscope", que resulta em um formato de tela circular, semelhante à íris do olho (sabe a bandeira do Japão?) Por essa Xavier Dolan e seu filme-Instagram Mommy não esperavam.
O efeito é bem próximo desse da imagem ao lado. E, apesar de, em princípio, a técnica parecer muito-loka-mano, o pior é que funciona. Passado em três atos (Paraíso, Pecado e Milagre), o longa em competitiva no 4º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba mostra basicamente a passagem de Lúcifer, o anjo expulso do paraíso, por uma comunidade rural do México, onde o belzebu encontra e modifica a vida de uma família bem simples da região.
É como se observássemos toda a narrativa com uma luneta (o Tondoscope), o que cria um distanciamento, como se ao espectador coubesse assistir aos olhos de Deus – ou do diabo. Mesmo com tão pouco espaço de tela para explorar (cerca de 1/3 do total), Van Den Berghe consegue dar conta de contar a história direitinho, através de um enquadramento bem preciso.
O casting é outro ponto alto do filme. O experiente ator Gabino Rodriguez (A Tiro de Pedra) incorpora o dito-cujo, sombrio e, ao mesmo tempo, sedutor (sem contar que ele tem todo o physique du role). E a tal família é vivida pela neta Maria (Norma Pablo) e os velhos irmãos Emanuel (Jerónimo Soto) e Lupita (María Toral). Apenas os dois primeiros são atores profissionais.
O jeito afetado da fala e mecânico do gestual dos não-atores (incluindo praticamente todo elenco de apoio), em princípio, poderia representar um problema. Mas é bastante significativo na medida em que o amadorismo dá a impressão de que o elenco é um joguete nas mãos do diretor, tal qual a família o é sob influência do anjo mau. Impossível não rir com o humor involuntário que brota da inocência e da espontaneidade do velhinho Jerónimo Soto/ Emanuel.
Uma pena que o roteiro perca força na segunda metade do filme. Longa (são quase duas horas), a produção deixa pontas soltas, e se perde rumo ao desfecho. No final da sessão, um burburinho tomou conta da sala.
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