Cine PE 2016: “Não faço filme para o meu umbigo”, diz Luiz Rosemberg Filho, expoente do cinema marginal

Quando o produtor carioca Cavi Borges convidou Luiz Rosemberg Filho para rodar um longa, deu carta branca para que o veterano cineasta, hoje aos 73 anos, escolhesse o tema. Ouviu como resposta: “Eu quero falar sobre a Guerra do Paraguai”. “Pô, mas logo um filme de guerra?”, retrucou Cavi, preocupado com o possível orçamento do filme.
“As armas vão ser as palavras”, tranquilizou-o o diretor, considerado um expoente do cinema marginal (ou “de invenção”, como ele prefere). E, ao custo de R$ 750 mil, inteiramente rodado no sítio do pai de Cavi, o resultado é Guerra do Paraguay, terceiro longa-metragem a entrar para a disputa competitiva do Cine PE, exibido na noite dessa quarta-feira, 4 de maio, no Cinema São Luiz, em Recife.
O projeto é antigo, fruto de um roteiro escrito há cerca de 15 anos pelo próprio Rosemberg, incomodado com a referência que ele tinha do conflito (em que a Tríplice Aliança, composta por Brasil, Argentina e Uruguai, praticamente dizimou a população masculina do Paraguai entre os anos 1864 e 1870), baseada em livros editados pela Biblioteca do Exército e, portanto, de avaliação parcial – segundo contou o realizador no encontro com a imprensa na manhã desta quinta-feira. O objetivo, de acordo com o cineasta, era “repensar essa postura de matar para se reafirmar”.
Na tela, nada de tiro, porrada (quer dizer, mais ou menos) e bomba. O que o filme retrata é um embate filosófico, um colóquio entre um soldado vitorioso (Alexandre Dacosta) que acaba de retornar da guerra e uma atriz de teatro (Patricia Niedermeier) calejada da vida. Apesar de coabitarem o quadro, os dois parecem oriundos de épocas diferentes.
Uma espécie de homenagem ao cinema “do passado”, Guerra do Paraguay é dedicado a Tempo de Guerra (ou Os Carabineiros), longa de 1963 de Jean-Luc Godard, e a Dr. Fantástico (1964), comédia de Stanley Kubrick (sim, o filme é dedicado a dois outros filmes). Daí a estruturação em longos planos-sequência, fotografados em preto e branco e preenchidos por diálogos enormes, que bebem das fontes de Jean-Jacques Rousseau, Molière, Bertolt Brecht, entre outros dramaturgos e pensadores (sim, o resultado é assumidamente teatral).
“Não se trata de um discurso imediatista, para agradar [ao público]”, diz o cineasta, que se considera anárquico. Por outro lado, rebate: “Não faço filme para o meu umbigo, faço para que as pessoas pensem”, argumento que ele procura defender com a homenagem ao filme de Kubrick, uma obra que “usa a comédia para fazer com que as pessoas tentem entender a guerra; para que as coisas possam ficar mais próximas do entendimento do público”.
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