Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 14 de outubro de 2025 · 2 min de leitura ·

Observatório de rádio descobre 164 anéis misteriosos na Via Láctea

Observatório de rádio descobre 164 anéis misteriosos na Via Láctea

Uma equipe internacional de astrônomos identificou 164 estruturas em forma de anel espalhadas pelo plano da Via Láctea durante um levantamento com a rede de radiotelescópios MeerKAT, na África do Sul. 

O trabalho, publicado no periódico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (MNRAS), descreve como observações em 1,3 GHz atravessam a poeira interestelar e revelam objetos invisíveis a telescópios ópticos. O objetivo é entender como essas estruturas surgem, o que elas contam sobre a evolução de estrelas e por que tantos exemplos permaneceram fora dos catálogos até agora.

O MeerKAT é um conjunto de 64 antenas distribuídas por cerca de oito quilômetros no deserto sul-africano. Diferentemente da luz visível, as ondas de rádio atravessam regiões densas de poeira interestelar, permitindo aos astrônomos enxergar o que antes ficava apagado no “fundo” da galáxia. Foi essa sensibilidade a estruturas sutis que trouxe à tona os anéis recém-registrados.

O catálogo reúne anéis com comportamentos variados. Em muitos, há sinais claros no infravermelho médio ou distante, sugerindo material aquecido por processos energéticos. Em outros, a assinatura está concentrada apenas no rádio, o que indica emissão de partículas aceleradas ou choques no gás interestelar. Também foram vistos casos com fontes pontuais no centro, uma pista de que a região ainda abriga atividade estelar ou remanescentes compactos.

Alguns anéis podem ser nebulosas planetárias – cascas de gás e poeira expelidas por estrelas que caminham para o fim da vida. Outros parecem conchas em expansão geradas por explosões estelares, como supernovas e novas, ou por ventos intensos de estrelas muito massivas, a exemplo das Wolf-Rayet e das variáveis azuis luminosas. Essas estrelas, em fases avançadas de evolução, literalmente esculpem o espaço ao redor com jatos e ventos, deixando marcas em forma de arcos e anéis.

Há ainda as possibilidades mais “fora da curva”: alguns objetos podem ser galáxias distantes ampliadas por lentes gravitacionais ou pertencer a uma classe recém-reconhecida de fontes de rádio circulares cujo funcionamento ainda é tema de debate. Para reduzir a incerteza, a equipe confrontou os sinais do rádio com mapas do infravermelho e catálogos astronômicos, propondo classificações preliminares para uma parcela significativa das fontes. Mesmo assim, a confirmação de cada caso depende de novas observações com melhor resolução angular e diferentes faixas do espectro.

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