Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 4 de dezembro de 2025 · 2 min de leitura ·

Múmias do Atacama: de “arteterapia” para lidar com o luto até a destruição de um povo

Múmias do Atacama: de “arteterapia” para lidar com o luto até a destruição de um povo

Um estudo publicado semana passada no Cambridge Archaeological Journal sugere que os antigos caçadores-coletores do Deserto do Atacama, no Chile, podem ter começado a mumificar seus mortos há cerca de 7.000 anos como forma de lidar com o luto. A prática teria surgido especialmente entre mães que perderam bebês por abortos espontâneos, natimortos ou mortalidade infantil.

Conhecido como cultura Chinchorro, o grupo responsável pela tradição viveu no litoral do atual norte do Chile, em um ambiente extremamente seco e difícil. Alguns sítios arqueológicos próximos ao rio Camarones tinham níveis altos de arsênico, que podem ter contribuído para mortes precoces de crianças.

Conduzido por Bernardo Arriaza, da Universidade de Tarapacá, no município chileno de Arica, o estudo recente aponta que as múmias mais antigas da cultura Chinchorro são de recém-nascidos e bebês. A pesquisa sugere que o envenenamento por arsênico pode ter levado a altas taxas de aborto espontâneo e mortalidade infantil, e que a mumificação surgiu como uma resposta emocional para lidar com essas perdas.

Segundo Arriaza explicou ao site IFLScience, para os pais Chinchorro, transformar e decorar os corpos de seus filhos com terra, gravetos e pigmentos era uma forma de mantê-los presentes. Com o tempo, essa prática se tornou mais elaborada, incluindo pintura, máscaras e perucas, e passou a ser aplicada a pessoas de todas as idades.

O pesquisador traça paralelos entre esse processo antigo e a arteterapia moderna, apontando que a criação artística ajuda a processar emoções intensas. Segundo ele, a mumificação permitia aos Chinchorro alcançar uma espécie de “catarse” e alívio emocional diante da perda.

No entanto, o próprio processo que oferecia conforto pode ter prejudicado a saúde da comunidade. O uso de manganês como pigmento, fundamental na decoração das múmias, expunha as pessoas a poeira tóxica, causando graves problemas neurológicos e psicose conhecida como “loucura por manganês”.

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