Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 23 de março de 2026 · 2 min de leitura ·

Cérebro de mosca ‘carregado’ em computador não é bem o que parece

Cérebro de mosca 'carregado' em computador não é bem o que parece

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra uma mosca digital caminhando, se alimentando e limpando o próprio corpo. A cena, à primeira vista simples, vem sendo apresentada como evidência de um avanço significativo: a suposta reprodução de um cérebro biológico em ambiente computacional.

A demonstração é atribuída à startup americana Eon Systems, que afirma ter conseguido “carregar” o cérebro de uma mosca para dentro de um sistema digital. A alegação rapidamente ganhou repercussão, acompanhada de comparações com cenários de ficção científica e especulações sobre a possibilidade de transferência de mentes humanas no futuro.

Especialistas, no entanto, apontam que a realidade é mais limitada. O que foi feito, segundo pesquisadores, consiste no uso de um modelo baseado no conectoma – o mapeamento das conexões entre neurônios – para controlar um corpo virtual. Embora seja um avanço técnico relevante, isso está longe de representar a reprodução completa de um cérebro.

O modelo utilizado tem origem em um estudo publicado em 2024 na revista Nature, que reconstruiu o sistema nervoso da mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster). O trabalho reuniu dados de mais de 125 mil neurônios e cerca de 50 milhões de conexões, obtidos por meio de anos de pesquisa com microscopia eletrônica.

Com base nesse mapa, os cientistas desenvolveram uma simulação capaz de reproduzir a propagação de sinais elétricos entre neurônios. Em testes, o sistema demonstrou capacidade de prever com alta precisão respostas básicas, como reações ao açúcar ou movimentos de limpeza.

A novidade apresentada pela Eon Systems estaria na integração desse modelo a um corpo virtual, permitindo que a simulação neural controle diretamente os movimentos da mosca digital. A execução ocorre em uma plataforma de física computacional, com o objetivo de gerar comportamentos sem programação manual de cada ação.

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