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Ciência e Espaço · · 4 min de leitura ·

Cientistas aprovam fim do “segundo bissexto” e mudam como o mundo marca o tempo

Cientistas aprovam fim do “segundo bissexto” e mudam como o mundo marca o tempo

Cientistas e representantes de países aprovaram o fim do chamado “segundo bissexto”, ajuste utilizado para manter o tempo oficial sincronizado com a rotação da Terra. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (15), durante a 28ª Conferência Geral de Pesos e Medidas, realizada na região de Versalhes (França). A mudança entrará em vigor em 20 de maio de 2027 e permitirá que a diferença entre o tempo oficial e o tempo determinado pela rotação terrestre aumente até uma hora, em vez de exigir correções de um segundo.

A medida busca reduzir os riscos provocados por esses ajustes em computadores, redes de comunicação, sistemas de navegação por satélite e serviços financeiros. O mecanismo será descontinuado após décadas de utilização, em mudança que afeta a maneira como a humanidade coordena a medição do tempo.

Segundo o Nature, a decisão também está relacionada à possibilidade de ser necessário aplicar um segundo bissexto negativo, algo que nunca foi feito. Nesse cenário, em vez de acrescentar um segundo ao relógio, seria necessário retirar um, o que poderia provocar dificuldades adicionais em sistemas digitais.

Por que precisamos de um segundo bissexto?

  • A explicação começa com uma diferença fundamental: o tempo medido por relógios atômicos não é exatamente igual ao tempo determinado pela rotação da Terra;
  • Os relógios atômicos medem o tempo a partir de fenômenos físicos extremamente regulares. A definição internacional do segundo, estabelecida em 1967, utiliza uma frequência específica associada ao átomo de césio-133. Um segundo corresponde a 9.192.631.770 períodos da radiação relacionada a uma transição entre dois níveis de energia desse átomo;
  • A rotação da Terra, por outro lado, não ocorre em velocidade perfeitamente constante. Embora estejamos acostumados a considerar que o planeta completa uma volta em aproximadamente 24 horas, a duração exata do dia varia;
  • A atração gravitacional da Lua, por exemplo, exerce efeito de maré que contribui para desacelerar a rotação terrestre ao longo do tempo. Outros fenômenos também interferem nessa dinâmica, tornando impossível tratar a duração do dia astronômico como uma constante absoluta;
  • Para entender a diferença, imagine dois relógios: um acompanha a passagem do tempo com base em oscilações atômicas extremamente estáveis; o outro representa a relação entre o tempo e a posição aparente do Sol no céu. Ao longo dos dias, pequenas diferenças podem se acumular;
  • É para administrar essa discrepância que existe o segundo bissexto.

Como funciona o ajuste?

O Tempo Universal Coordenado (UTC, na sigla em inglês) é a principal referência internacional para sincronizar relógios e sistemas. Ele serve de base para aplicações que vão de telecomunicações e navegação por satélite a transações financeiras e infraestrutura digital.

Desde 1972, o sistema utiliza segundos bissextos para manter o UTC próximo do tempo determinado pela rotação terrestre, conhecido como UT1.

Quando a diferença entre as duas referências se aproxima do limite estabelecido, um segundo pode ser acrescentado ao UTC. Em vez de a sequência dos relógios passar diretamente de 23h59min59s para meia-noite, ela inclui um segundo adicional: 23h59min60s.

O último segundo bissexto foi acrescentado em 31 de dezembro de 2016. Desde então, não houve novos ajustes desse tipo.

O problema é que sistemas computacionais nem sempre lidam bem com essa alteração. Programas e serviços podem interpretar o segundo adicional de maneiras diferentes, provocando inconsistências na sincronização de horários e falhas operacionais.

A situação seria ainda mais delicada caso fosse necessário fazer o ajuste inverso, retirando um segundo. Isso exigiria que sistemas preparados para uma sequência contínua de tempo lidassem com uma correção inédita.

Por que os cientistas decidiram acabar com o segundo bissexto?

A preocupação com os riscos tecnológicos já vinha sendo discutida internacionalmente. Em 2022, a Conferência Geral de Pesos e Medidas decidiu ampliar, até 2035, o limite permitido para a diferença entre o UTC e o tempo determinado pela rotação terrestre. A decisão de outubro de 2026 antecipou a mudança.

A nova regra permite que essa diferença chegue a 3.600 segundos, ou uma hora, sem que seja necessário inserir segundos bissextos. O UTC passará a funcionar de maneira contínua a partir de 20 de maio de 2027.

De acordo com o Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), a coordenação internacional do tempo é essencial para manter sistemas de navegação, telecomunicações, infraestrutura digital e transações financeiras operando com uma referência comum.

Segundo bissexto era um ajuste utilizado para manter o tempo oficial sincronizado com a rotação da Terra – Imagem: gerado com IA/Olhar Digital

A alteração busca justamente reduzir a necessidade de ajustes irregulares que podem gerar comportamentos inesperados em sistemas tecnológicos.

Isso não significa que os relógios atômicos deixarão de funcionar ou que os cientistas perderão a capacidade de acompanhar a rotação terrestre. O que muda é a maneira como as duas referências serão conciliadas no padrão internacional de tempo.

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