
Um estudo publicado na revista Nature Geosciences na terça-feira (3), conduzido por pesquisadores da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, descobriu que duas estruturas rochosas colossais e extremamente quentes vêm afetando o campo magnético da Terra há milhões de anos.
Essas formações estão localizadas na base do manto terrestre, a cerca de 2.900 km de profundidade, sob as regiões da África e do oceano Pacífico, e exercem influência direta sobre o movimento do núcleo externo líquido do planeta.
A descoberta foi possível graças à combinação de registros paleomagnéticos – que preservam informações sobre o campo magnético antigo – com simulações computacionais do geodínamo, o mecanismo que gera o magnetismo terrestre. Os resultados ajudam a esclarecer como a interface entre o manto e o núcleo, uma das regiões mais importantes e inacessíveis do interior da Terra, orienta o comportamento do campo magnético ao longo de escalas de tempo muito extensas.
Explorar o interior da Terra é um desafio extremo: enquanto sondas já viajaram bilhões de quilômetros pelo espaço, os poços mais profundos mal atravessam a crosta. Nesse contexto, desvendar o que acontece no limite entre o manto e o núcleo, onde temperaturas e pressões são extremas, exige inferências baseadas em sinais preservados nas rochas e em modelos físicos de alta complexidade.
Foi isso que a equipe fez ao combinar observações paleomagnéticas, capazes de registrar a direção e a intensidade do magnetismo antigo, com simulações avançadas do geodínamo. Esses modelos numéricos permitem acompanhar, por longos intervalos, como o ferro líquido no núcleo externo se movimenta e gera o campo magnético, algo análogo ao funcionamento de uma turbina que converte energia em eletricidade. Mesmo com supercomputadores, reconstruir centenas de milhões de anos de dinâmica interna continua sendo um desafio computacional imenso.
Os resultados revelam que o topo do núcleo externo, em contato com a base do manto, não é termicamente uniforme. Ao contrário, apresenta grandes contrastes de temperatura: há regiões quentes associadas a estruturas rochosas do tamanho de continentes, cercadas por um cinturão de material mais frio que se estende de polo a polo. Essa topografia térmica parece canalizar e, em alguns pontos, inibir o fluxo do metal líquido, criando zonas do campo magnético que permanecem relativamente estáveis e outras sujeitas a mudanças expressivas.
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