Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 12 de novembro de 2025 · 2 min de leitura ·

Lagos da Amazônia ultrapassam 40 °C e provocam morte em massa de botos

Lagos da Amazônia ultrapassam 40 °C e provocam morte em massa de botos

Em 2023, uma seca severa transformou lagos da Amazônia em verdadeiras caldeiras naturais, com temperaturas superiores às de uma banheira quente. O lago Tefé, no Amazonas, chegou a registrar 41 °C, um cenário que resultou na morte de mais de 200 botos e milhares de peixes, evidenciando os impactos diretos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas aquáticos da região.

Pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá analisaram dados de satélite e medições locais realizadas durante a seca histórica de 2023. As conclusões, publicadas na revista Science, apontam para uma combinação de fatores extremos que levou os lagos amazônicos a esse colapso ambiental: ventos fracos, baixos níveis de água, radiação solar intensa durante 11 dias sem nuvens e águas mais turvas, que absorveram ainda mais calor.

O fenômeno foi associado ao aquecimento generalizado dos oceanos — principalmente do Atlântico Norte — e à presença de um evento El Niño moderado a forte. Em cinco dos dez lagos estudados, as temperaturas ultrapassaram 37 °C, mas as oscilações bruscas de até 13 °C foram determinantes para o estresse térmico fatal que atingiu os animais aquáticos.

Segundo os pesquisadores, esse aumento de temperatura em grandes volumes de água é sem precedentes. O aquecimento acelerado impôs condições letais para peixes e mamíferos aquáticos, comprometendo completamente o equilíbrio ecológico dos lagos da Amazônia.

Entre as espécies mais afetadas estavam o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e o tucuxi (Sotalia fluviatilis), ambos em risco de extinção. Em apenas uma semana, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) estimou que 10% da população local de botos foi perdida — 130 indivíduos da espécie rosa e 23 tucuxis. Ao todo, cerca de 330 carcaças foram encontradas nos arredores dos lagos.

O impacto não se limitou aos mamíferos. De acordo com o biólogo Adalberto Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, temperaturas tão elevadas fazem com que os peixes parem de funcionar biologicamente: suas enzimas bloqueiam, o metabolismo colapsa e eles morrem rapidamente.

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