Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 6 de fevereiro de 2026 · 2 min de leitura ·

Macacos tem imaginação? Cientistas fazem descoberta surpreendente

Macacos tem imaginação? Cientistas fazem descoberta surpreendente

Uma simples brincadeira de “fazer cócegas” entre cientistas, encenada a pedido de um bonobo, desencadeou uma descoberta que redefine os limites da cognição animal. Em estudo publicado na revista Science, pesquisadores apresentam evidências de que Kanzi, o famoso primata que se comunicava por símbolos, possuía a capacidade de compreender e raciocinar sobre objetos e ações imaginários — uma faculdade mental que se acreditava profundamente humana.

A investigação nasceu de um momento de espontaneidade. Em 2023, a pesquisadora Amalia Bastos visitou Kanzi no santuário onde vivia. Ao vê-la com um colega, o bonobo usou seu teclado de símbolos para pedir que eles “perseguissem” e “fizessem cócegas” um no outro. Os cientistas encenaram o pedido. “Ele achou muito divertido”, lembra Bastos para a Scientific American. “E eu pensei: ele parece satisfeito com esse teatro de fantoches que criou.” A cena plantou a dúvida: Kanzi entendia a diferença entre a simulação e a realidade?

Para testar essa hipótese, Bastos e sua equipe da Universidade Johns Hopkins adaptaram um clássico teste infantil de “faz de conta”. Eles mostraram a Kanzi jarra e copos vazios, e então simularam encher dois copos com “suco imaginário” e “derramar” o conteúdo de um deles. Quando perguntado onde ainda havia suco, Kanzi apontou consistentemente para o copo “cheio”, com uma precisão muito acima do acaso. O teste foi repetido com “uvas imaginárias” com o mesmo sucesso.

“Se Kanzi não tivesse noção de objetos imaginários, sua resposta seria aleatória”, explica Bastos. O desempenho do bonobo, no entanto, indicou que ele era capaz de rastrear entidades invisíveis e fazer inferências sobre suas ações em um cenário simulado.

A descoberta alimenta um debate científico profundo. Para o autor sênior do estudo, Christopher Krupenye, ela sugere que “não somos os únicos animais com uma vida mental rica que pode se estender além do aqui e agora”. Biólogos como Martin Surbeck, da Universidade de Harvard, veem os resultados como uma confirmação de suspeitas de longa data baseadas em observações na natureza, como chimpanzés que carregam gravetos como se fossem bebês.

Contudo, a interpretação não é unânime. Daniel Povinelli, biólogo da Universidade da Louisiana, é cauteloso. Para ele, o estudo demonstra que Kanzi podia seguir “estruturas complexas de interação guiadas por humanos”, mas não prova que ele conceituava a imaginação “no sentido humano”. A questão central — qual a natureza exata dos conceitos na mente de Kanzi — permanece em aberto.

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