Microrganismo com genoma minúsculo desafia definição do que é estar vivo

Um microrganismo com um dos menores genomas já identificados pela ciência está levando pesquisadores a questionar os limites do que caracteriza a vida. Batizado de Sukunaarchaeum mirabile, ele possui apenas 238 mil pares de bases de DNA e apresenta uma estrutura genética tão reduzida que pode depender de outro organismo para sobreviver.
A descoberta aconteceu por acaso, durante uma pesquisa com o plâncton unicelular Citharistes regius, coletado em águas superficiais do mar na costa de Shimoda, no Japão. Os cientistas investigavam o material genético de cianobactérias que vivem em associação com esse plâncton quando encontraram uma pequena sequência circular de DNA que chamou a atenção da equipe.
O estudo foi publicado na revista científica Current Biology e reúne pesquisadores das áreas de biologia e ciência da computação.
Organismo tem menos DNA do que alguns vírus
- O Sukunaarchaeum mirabile pertence ao domínio Archaea, formado por organismos unicelulares que, assim como as bactérias, não possuem o DNA protegido por um núcleo envolvido por membrana. Apesar dessas semelhanças, as arqueias têm uma história evolutiva própria e características distintas das bactérias;
- O tamanho do genoma recém-identificado é particularmente impressionante. Existem vírus com genomas maiores do que o do microrganismo, alguns com 730 mil pares de bases e outros com até 2,5 milhões;
- A comparação chama a atenção porque os vírus não são considerados seres vivos por muitas definições convencionais, entre outros motivos, por não possuírem metabolismo próprio.
O Sukunaarchaeum mirabile também apresenta limitações importantes. Seu genoma não contém quase todos os genes normalmente necessários para manter o metabolismo de forma independente. Isso significa que ele aparentemente não consegue produzir sozinho tudo de que precisa para sobreviver.
Quando os resultados preliminares foram divulgados, em 2025, os pesquisadores chegaram a descrever sua existência como semelhante à de um vírus. Na versão final do estudo, porém, essa comparação foi abandonada para evitar confusão sobre sua classificação biológica.

Leia mais:
- Cientistas descobrem o segredo genético dos gatos laranjas
- O mistério do genoma obscuro. Ele representa 80% do nosso DNA
- Estudo aponta que duas aves brasileiras estão entre as mais barulhentas
Microrganismo pode depender de um hospedeiro
Uma das principais questões levantadas pela descoberta é como o organismo consegue sobreviver com tão pouca informação genética.
Segundo os pesquisadores, o microrganismo perdeu quase todos os genes necessários para produzir nutrientes e energia, mas preservou boa parte dos mecanismos responsáveis por copiar seu próprio genoma e fabricar proteínas a partir das informações contidas no DNA.
Essa combinação sugere que ele pode estar próximo do limite mínimo de informação genética necessário para uma célula continuar sendo capaz de se reproduzir e manter seu material genético.
Thorsten Allers, biólogo molecular da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, explica que a capacidade de se replicar e o grau de autonomia desse processo são questões centrais para definir a vida.
A descoberta, segundo o pesquisador, oferece novas pistas sobre o quão simples uma célula viva pode se tornar e ainda preservar a capacidade de reprodução e manutenção de suas informações genéticas.
Os únicos organismos conhecidos com menos material genético do que o Sukunaarchaeum mirabile são bactérias que se tornaram tão dependentes de hospedeiros simbióticos que praticamente perderam sua identidade como organismos separados.
Parasita ou parceiro de outro organismo?
Os pesquisadores também consideram a possibilidade de o microrganismo ser um parasita, em vez de um parceiro que oferece algum benefício ao organismo que o abriga.
Entre para comentar.