Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 3 de dezembro de 2025 · 3 min de leitura ·

Radiação de estrelas que passaram “de raspão” pelo Sol há milhões de anos persiste até hoje

Radiação de estrelas que passaram “de raspão” pelo Sol há milhões de anos persiste até hoje

Uma equipe liderada pelo astrofísico Michael Shull, da Universidade do Colorado, em Boulder, nos EUA, reconstruiu o passado da vizinhança solar e descobriu que, há cerca de 4,4 a 4,5 milhões de anos, duas estrelas muito quentes – Epsilon Canis Majoris (também conhecida como Adhara) e Beta Canis Majoris (ou Mirzam) – passaram perigosamente perto do Sol. Elas chegaram a apenas algumas dezenas de anos-luz de distância, bombardeando intensamente as nuvens de gás e poeira ao redor com radiação ultravioleta.

Em um artigo publicado recentemente no periódico científico The Astrophysical Journal, os cientistas relatam que isso teria ionizado gás de hidrogênio e hélio ao redor do Sistema Solar, deixando uma assinatura ainda detectável e ajudando a explicar um enigma que persiste há décadas.

Nos arredores do Sistema Solar, existe um conjunto de nuvens interestelares tênues, uma espécie de “neblina” de gás e poeira composta principalmente de hidrogênio e hélio. Elas se estendem por dezenas de anos-luz e estão imersas em uma cavidade da galáxia conhecida como Bolha Quente Local, região onde o material interestelar é mais rarefeito e permanece aquecido por antigos eventos explosivos.

Nos anos de 1990, os astrônomos começaram a medir com mais precisão esse ambiente, com ajuda de equipamentos como o Telescópio Espacial Hubble, da NASA. Observações apontaram que uma parcela considerável dos átomos dessas nuvens está ionizada, com destaque para o hélio, que aparece mais carregado do que os modelos simples previam. 

A pesquisa de Shull encaixa algumas peças nesse quebra-cabeça ao simular retroativamente os movimentos do Sol, das estrelas vizinhas e das próprias nuvens, todas em constante deslocamento. “É como um jogo onde todas as peças estão se movendo”, disse o cientista. “O Sol está se movendo. As estrelas estão se afastando de nós. As nuvens estão se dissipando.”

Os cálculos apontam que, no passado recente em termos cósmicos, Adhara e Mirzam, que atualmente estão a mais de 400 anos-luz da Terra, na Constelação do Cão Maior, passaram muito mais perto do nosso sistema. Estrelas do tipo B, como essas, brilham de forma intensa e têm vidas curtas em comparação com o Sol. Ao cruzarem a vizinhança solar, sua radiação ultravioleta teria arrancado elétrons de átomos nas nuvens locais, deixando um “rastro químico” que ainda persiste. “Se pensarmos em 4,4 milhões de anos atrás, essas duas estrelas teriam sido de quatro a seis vezes mais brilhantes do que Sirius é hoje, de longe as estrelas mais brilhantes do céu”, disse Shull.

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