Especulação imobiliária pré-Olimpíada e realismo mágico se fundem em ‘Mormaço’

Acompanhamos um dia de filmagem do primeiro longa solo de Marina Meliande, parceira de Felipe Bragança, de A Alegria.
O último dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, será inesquecível para a líder comunitária Maria da Penha Macena. À tarde, ela entrou pela porta da frente da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) para receber a medalha de “Mulher Cidadã”, por seu trabalho na Vila Autódromo, região da Zona Oeste da cidade do Rio, onde vive. Pela manhã, Dona Penha, como é conhecida, saiu pela porta dos fundos da própria casa, demolida pela Prefeitura do Rio. Não, não se trata de um filme. Bem… mais ou menos.
A casa de Maria da Penha servia de base para as locações de Mormaço, primeiro longa-metragem solo de Marina Meliande, parceira de Felipe Bragança em premiados filmes como A Fuga da Mulher Gorila e A Alegria. O prédio foi derrubado no segundo dia de filmagens, para dar lugar às obras preparativas para a Olimpíada.
A realidade, claro, adentrou à ficção. “Mormaço se passa no verão mais quente e úmido da história do Rio de Janeiro, num momento pré-olímpico, com a cidade se preparando para os jogos. A personagem principal é Ana, uma defensora pública que trabalha no auxílio a algumas comunidades que estão em processo de remoção”, explica a cineasta.
A ideia, no entanto, veio bem antes do fatídico 8 de março, e surgiu “a partir de um incômodo muito grande que eu tinha de não me sentir parte do processo de mudança dessa cidade. De achar que é um processo arbitrário, sem consulta. É uma sensação de que a cidade nos expulsa um pouco a cada dia”, mesmo com as classes sociais sendo atingidas de forma diferente, ela reconhece.
A demolição de um corpo. Outra Marina, Provenzzano, assume o papel de Ana, a protagonista, que passa por um drama paralelo: ela também tem que abrir mão da própria moradia, já que o prédio, de classe média, onde mora, está sendo desativado para a construção de um hotel de luxo (qualquer semelhança com a história do empresário Eike Batista, que desativou construções com o mesmo objetivo e hoje está falido, não é mera coincidência).
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