Exclusivo: “A emoção nasce do mistério”, afirma a diretora Anne Fontaine sobre o drama Agnus Dei

Estreia dia 14 de julho nos cinemas brasileiros o filme francês Agnus Dei, retrato de um triste episódio histórico: durante a Segunda Guerra Mundial, diversas freiras foram estupradas pelos soldados soviéticos, e muitas delas engravidaram. Como manter a fé em Deus depois desta atrocidade? Como lidar com os votos de celibato?
O filme aborda esta crise através do encontro entre duas freiras, uma conservadora (Agata Kulesza) e outra progressista (Agata Buzek) com a jovem médica francesa (Lou de Laâge) que atende em segredo as mulheres traumatizadas. Nós conversamos em exclusividade com a diretora Anne Fontaine sobre o projeto:
AdoroCinema: Existem muitos relatos de atrocidades na guerra, mas a história específica de freiras polonesas estupradas durante a Segunda Guerra Mundial ainda era pouco conhecida.
Anne Fontaine: O que me chamou atenção foi a força incrível desta história e a intensidade das emoções que ela desperta, as questões sobre a violência, a fé, a maternidade, sobre as relações entre o mundo laico e o mundo religioso. Fiquei empolgada com as possibilidades de expressar o encontro entre uma mulher de ciência, uma médica à frente de seu tempo, e estas freiras grávidas.
AF: Sim, eu conheci o sobrinho desta médica, que é um homem francês. Ele guardava há tempos um diário de bordo desta médica, contendo a história do encontro com as freiras. Ele já queria transformar isso em filme. Mas não é um diário com aspectos psicológicos, só fatos. Em seguida, retomei um roteiro que já tinha sido escrito na época, inspirado nestes fatos. Decidi refazer a pesquisa histórica, porque isso é algo esquecido na Polônia. Com o roteirista Pascal Bonitzer, interpretamos a psicologia de cada personagem, as reações delas diante da maternidade, e as crises de fé. Foi um trabalho de dramaturgia a partir de fatos reais.
AF: Isso foi natural para mim: acredito que a emoção esteja na contenção. Sempre pensei que a emoção exige um equilíbrio complexo, mas isso governou a maneira de dirigir as atrizes, para que não fossem sentimentais. Elas precisam guardar suas forças para trabalhar, não para ter empatia. A emoção nasce do mistério. É verdade que poderia a história poderia se tornar um rio de lágrimas, mas eu prefiro que o espectador fique emocionado, não a equipe.
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