Festival de Berlim 2017: Para Marcelo Gomes, diretor de Joaquim, mídia brasileira ataca artistas para alienar população e controlar revoltas (Exclusivo)

O diretor explicou de que modo o filme sobre Tiradentes reflete a realidade política e social do país.
Em 2017, o Brasil teve uma participação inédita no festival de Berlim, com nada menos que doze filmes exibidos em várias mostras. Joaquim, de Marcelo Gomes, foi o nosso representante na disputa pelo Urso de Ouro. O filme mostra a formação política de Tiradentes (Júlio Machado), desde o trabalho para a Coroa portuguesa até o ímpeto revolucionário.
O AdoroCinema conversou com o diretor em exclusividade, para conhecer mais sobre o projeto e descobrir de que maneira ele reflete a sociedade brasileira atual. Leia a nossa crítica e descubra este bate-papo:
Marcelo Gomes: Essa é a primeira exibição do filme, e acontece para o público da Berlinale, que é o maior festival aberto do mundo. Cannes é um festival fechado. Então foi muito interessante porque você sai da sessão e conversa com cinéfilos, mas também com o público que quer entender as questões sociais, políticas e geográficas de um país. Foram conversas incríveis, eu aprendi mais sobre o meu filme e sobre o meu trabalho de diretor.
Como Joaquim é um filme de essência política muito forte, assim que ficou pronto eu pensei: “Esse filme tem a cara de Berlim. Não vou mandar para nenhum outro festival, vou mandar para Berlim”. Os curadores viram assim que saiu do forno e aceitaram. A gente acabou o filme em outubro e mandamos direto, e em dezembro chegou o convite. A experiência foi incrível, porque falando com franceses, ingleses, espanhóis, portugueses… A percepção do filme é quase igual.
O que eu fiz foi investigar esse homem, para entender como que ele mudou de paradigma e virou um revolucionário. Acho que ele se tornou um revolucionário porque viu o nascimento de uma nação. Ele tem vários “cliques” no filme: primeiro é a paixão por uma escrava, então ele vê como é cruel ser escravo a partir daquela cena do estupro. Depois ele sente a frustração profissional de não ter se tornado tenente, porque ele não é filho da elite. Em seguida ele convive com um negro e um índio, querendo se comunicar. Por isso que ela fica se perguntando: “Quem sou eu?”. Existe essa loucura no Brasil, né? Tem gente que se acha europeu no Brasil. A gente vive essa confusão sobre quem somos nós. Por fim veio o fracasso profissional. Depois disso, em seu caminho ele encontra uma verdadeira revolução.
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