Festival de Brasília 2015: Big Jato é aplaudido de pé, mas diretor Cláudio Assis recebe vaias

A noite foi polêmica no 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O diretor Cláudio Assis estava presente para a sessão de seu novo filme, Big Jato. Mas ele nem conseguiu apresentar o filme: fortes gritos de "machista" e "não passará" abafavam sua voz cada vez que tomava o microfone. Os protestos são relacionados ao incidente, de fato lamentável, durante um debate do drama Que Horas Ela Volta?. Na ocasião, Assis teve um péssimo comportamento, calando a diretora Anna Muylaert, insultando a atriz Regina Casé e o resto da equipe.
O cineasta já tentou se retratar, de maneira pouco convincente, e recebeu punições severas, tendo seu filme proibido em um dos principais cinemas de Pernambuco durante um ano. Ele chegou a Brasília com uma camiseta elogiando a diversidade sexual e de gênero, com as palavras "Lésbicas, gays, bissexuais, transexuais"… Desculpa ou provocação? De qualquer modo, a presença do diretor não foi tolerada pelos ativistas na plateia. O ator Matheus Nachtergaele, com maestria, tomou as rédeas da situação e pediu para o público separar a obra do criador: "Nós podemos vaiar nossos horrores e aplaudir nossas maravilhas". Depois, juntou o elenco mirim em frente ao palco, acalmando os ânimos no Cine Brasília.
A reação a Cláudio Assis foi recebida de modos distintos. Parte dos jornalistas e espectadores apoiaram o protesto, como forma de reparação aos numerosos conflitos provocados pelo diretor ao longo dos anos. Outros consideraram o comportamento excessivo. Talvez o problema diga respeito à forma da manifestação. A vaia, simbólica, demonstra descontentamento e tem sua pertinência neste contexto. Mas as vaias sucessivas, impedindo que o diretor pronuncie uma palavra sequer, são questionáveis.
De que adianta impedir que o diretor fale? Como punição pela atitude grosseira, ele não tem mais o direito de se pronunciar? Até quando? O militantismo que decide calar a voz alheia possui uma parte de censura, e uma parte de infantilidade: este é o mesmo comportamento daqueles que batem panela quando um(a) político(a) indesejado(a) se pronuncia na televisão. Tapar os ouvidos, ou impedir o diálogo, para além do simbolismo do ato, não contribui em nada ao avanço da questão.
O verdadeiro comportamento militante foi da jornalista Carolina Almeida, que denunciou o caso com um texto contundente, e dos diretores da Fundação Joaquim Nabuco, que proibiram o filme de Assis e de Lírio Ferreira, também envolvido no debate de Que Horas Ela Volta?. Os militantes de ontem talvez pudessem ter placas, escrever textos, ou abordar Cláudio Assis e exigir desculpas públicas. Ou seja, ao invés de impedirem o debate, deveriam multiplicar a discussão.
Primeira ironia da noite: Big Jato saiu do festival muitíssimo bem recebido, com quase toda a plateia do Cine Brasília aplaudindo de pé. Segunda ironia: este é o filme mais doce e carinhoso de Cláudio Assis em toda a sua carreira. O diretor relata a passagem à fase adulta do jovem Francisco, dividido entre o respeito pelo…
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