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Cinema · · 3 min de leitura ·

Mostra de Tiradentes 2017: Documentário examina séculos de perseguição aos índios Guarani-Kaiowá

Mostra de Tiradentes 2017: Documentário examina séculos de perseguição aos índios Guarani-Kaiowá




Um dia depois do incendiário Era o Hotel Cambridge ser ovacionado ao discutir a questão da moradia e dos "Brasis dentro do Brasil" na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o documentário Martírio, que apresenta corajosamente a luta por território do povo Guarani-Kaiowá, também recebeu uma calorosa recepção do público, como aconteceu quando foi exibido no Festival de Brasília e na Mostra de São Paulo.

"Desejo muita emoção nessa projeção. É importante que o Brasil conheça o Brasil", afirmou o diretor Vincent Carelli ao apresentar o filme diante de centenas de espectadores. Carelli já tinha ciência do poder do material que produziu e sua vontade se concretizou: Ao longo da sessão muitas pessoas não conseguiram evitar as lágrimas. 

"A gente estuda a História do Brasil pensando que a colonização é uma coisa do passado, [pensando que] ela começou e ela acabou. Esse filme é um atestado ao fato de que a colonização é algo que ainda ocorre hoje em dia. Ela está em curso", disse o codiretor e diretor de fotografia Ernesto de Carvalho, que também criticou o governo de Michel Temer. "Esse golpe que a gente viveu não é nada mais do que um aprofundamento dessa colonização, da destruição da diferença e de possibilidades de uma vida que não seja fundamentada pelo consumo." Tita, codiretora e montadora de Martírio, aproveitou para ressaltar que o filme foi financiado através de uma campanha de crowdfunding que atraiu quase 900 doadores.

No ano passado, o termo "pós-verdade" foi eleito a palavra do ano no Dicionário Oxford. O conceito da palavra indica uma forma de interpretar a disseminar dados dando mais importância à emoção ou crença pessoal pré-estabelecida. O verbete costuma vir carregado de uma conotação negativa, mas entre 2012 e 2013 algo que poderia ser lido como uma "pós-verdade" que lançou luz a uma questão que passou à margem da opinião pública por décadas: O sofrimento do povo Guarani-Kaiowá em sua pacífica luta para fazer valer seus direitos.

Muitos devem lembrar da onda que tomou ativistas e apoiadores nas redes sociais, quando milhares de pessoas mudaram seus sobrenomes em perfis no Facebook para "Guarani-Kaiowá". O gesto de solidariedade surgiu após circular pela internet uma carta assinada por líderes da comunidade Pyelito Kue, que enfrentavam um processo de despejo e fizeram um apelo ao Governo Federal, afirmando que seria uma "morte coletiva" para o grupo de 170 indígenas sair do local de onde vivem. O documento gerou comoção nacional e internacional ao ser interpretado como o anúncio de um suicídio coletivo.

"Eles anunciavam que ficariam lá até serem mortos, não que se suicidariam, mas o entendimento geral de que haveria um suicídio ajudou muito a deter o despejo", afirma um dos índios escutados em Martírio, filme de Vincent Carelli que apresenta com didatismo um vasto olhar histórico, antropológico e também emotivo sobre o tema.

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