Olhar de Cinema 2015: Registro de férias de Glauber Rocha vira filme no festival paranaense

Material foi descoberto por acaso na casa da cantora Mossa Bildner, ex-namorada do cineasta, e adaptado para o cinema, em sua primeira exibição pública.
Na tela: ruas, paredes, telhados, cadeiras, pessoas, hotéis, letreiros, uma gaivota, o mar; arbustos, palmeiras. Um típico registro de férias (no caso, no Marrocos, especificamente na cidade de Essaouira). Não muito diferente do que eu ou você filmamos quando viajamos. Aliás, diferente, sim, na medida em que estamos falando de 1973, quando as câmeras digitais (e os smartphones), obviamente, ainda não haviam sido inventadas, para o bem ou para o mal.
Então, o que justificaria transformar tais imagens aleatórias em filme, para ser exibido no cinema? Acontece que as mãos por trás da Super-8 que filmavam na década de 1970 atendiam pelo nome de "mãos de Glauber Rocha", o mais importante e cultuado cineasta do Cinema Novo.
"Eu nunca imaginei que pudesse haver alguém interessado nessas imagens", diz a dona do acervo, a cantora nova-iorquina radicada em Curitiba Mossa Bildner, que guardou carinhosa e despretensiosamente o material (transposto, inicialmente, para VHS, depois para DVD), durante mais de 40 anos.
O primeiro a discordar dela foi o jornalista Cristiano Castilho, que descobriu o "tesouro" em uma entrevista com a cantora – namorada de Glauber da época. Outro jornalista paranaense, Paulo Camargo, entrou em contato com a direção do Olhar de Cinema e, voilà, o registro de férias acabou virando o filme acidental A Vida É Estranha, um média-metragem de 40', cuja direção é "de" Glauber Rocha, "com" Mossa Bildner, que teve pré-estreia "mundial" na última sexta-feira, dentro da programação do festival.
O agora filme começa com as únicas imagens que não foram filmadas pelo cineasta, afinal, quem aparece no centro da tela é o próprio Glauber (esqueça esse "conceito" de selfie). Sacudindo dentro do quadro tremido, com uma jovem Mossa responsável pela captação da cena, Glauber faz a barba em um coiffeur. Sai sorridente e, assim começa A Vida É Estranha.
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