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Cinema · · 3 min de leitura ·

Better Call Saul: Confira nossa crítica da segunda temporada

Better Call Saul: Confira nossa crítica da segunda temporada




Um homem de família típico, casado, pai de um jovem deficiente e de uma menina prestes a nascer, Walter White (Bryan Cranston) é um químico brilhante de carreira frustrante. Professor escolar, ele tem apenas uma saída para pagar o seu tratamento de câncer: produzir e traficar metanfetamina. Este é o argumento de Breaking Bad, um dos mais poderosos já criados para a televisão. Porém, a série foi além de uma improvável história de gângster — apesar de tanto subtema importante — para se tornar um fenômeno mundial. Dentre tantas qualidades, sua base é uma dramaturgia refinada, que permitiu-lhe alcançar o status de um verdadeiro estudo de personagem.

Na estrutura da série derivada, os criadores Vince Gilligan e Peter Gould subvertem por completo as características responsáveis pela popularidade de Saul Goodman (Bob Odenkirk). Em vez de uma comédia sobre um advogado trambiqueiro, eles realizam o drama de um homem que é caricatura de si mesmo. A história trágica de alguém que, de tanto vestir um personagem para vencer, tudo perde — para sobreviver, inclusive a identidade. O comovente início de cada temporada se destina a isso, mostrando a vida em preto e branco do terceiro Jimmy, Gene, dono de um Cinnabon no Missouri.

Better Call Saul tem, por isso, uma progressão lenta. Minuciosa, psicológica. E emocionante. Como fora Breaking Bad, com as temporadas (dois anos em seis) expandindo conflitos e revelando personagens tão complexos. Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks) cresce tanto na segunda temporada que seu arco se torna próprio, independente de Jimmy. Cada vez mais, assistimos à saga solitária de um homem que revive fantasmas do passado para se ver livre deles, em definitivo, no futuro. Seu desenvolvimento aqui torna ainda mais triste o seu desfecho em Breaking Bad.

Mike também se transforma no elo principal de Better Call Saul com a série original. Especialmente no que diz respeito à subtrama criminosa de BrBa (o que inclui participações muito especiais). O deserto segue sendo o local onde "disputas entre homens" se resolvem, remontando à tradição sangrenta dos faroestes. O ápice disso é o season finale, que ainda reserva uma sequência incrível: da mira de sua arma de longa distância, focalizando um alvo, Mike ouve o som de uma selva que não se encontra em Albuquerque, mas em suas lembranças da Guerra do Vietnã. É a edição de som entrando na mente do personagem para servir à narrativa. Coisa linda!

Tamanho apuro cinematográfico recai sobre Vince Gilligan. Fã de Quentin Tarantino, o cineasta se cerca dos melhores profissionais (principalmente montadores e o diretor de fotografia Arthur Albert) para exprimir todo o poder da imagem. Sua força se impõe no modo como ilustra, por exemplo, o estado psicológico de Kim Wexler (Rhea Seehorn). Numa cena, uma breve saidinha para fumar, no terraço de um prédio, após uma vitória individual, nos transporta para a primeira temporada, quando esses momentos eram compartilhados com Jimmy, num subsolo, vista apenas parcialmente…

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