Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 10 de fevereiro de 2026 · 2 min de leitura ·

“Chuva química” invisível se espalha pelo mundo

“Chuva química” invisível se espalha pelo mundo

Um estudo publicado este mês na revista Geophysical Research Letters alerta para um efeito colateral inesperado de substâncias criadas para proteger a camada de ozônio: elas estão contribuindo para uma espécie de “chuva química” em todo o mundo. Segundo a pesquisa, esses compostos liberam na atmosfera um ácido altamente persistente, que depois retorna à superfície da Terra por meio da precipitação e da deposição no solo.

Liderado por cientistas da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, o trabalho calculou pela primeira vez o volume total desse poluente formado nas últimas décadas. Entre 2000 e 2022, cerca de 335.500 toneladas de ácido trifluoroacético (TFA) foram produzidas na atmosfera e depositadas no planeta. O TFA é resultado da decomposição de gases usados como substitutos dos antigos clorofluorocarbonetos (CFCs), proibidos por destruírem a camada de ozônio.

Os CFCs foram amplamente banidos após o Protocolo de Montreal, assinado em 1987. No lugar deles, passaram a ser utilizados outros compostos, como os hidroclorofluorocarbonos (HCFCs), os hidrofluorocarbonos (HFCs) e, mais recentemente, os hidrofluorolefinas (HFOs). Esses gases são empregados principalmente em sistemas de refrigeração, ar-condicionado e também em alguns anestésicos inalatórios.

Embora tenham sido considerados alternativas mais seguras para o ozônio, esses substitutos não são isentos de impactos ambientais. Quando liberados na atmosfera, eles podem reagir com outros componentes do ar e se decompor, formando o TFA. Esse composto pertence ao grupo das substâncias per e polifluoradas (PFAS), conhecidas como “químicos eternos” por praticamente não se degradarem no meio ambiente.

CFC swaps spike global TFA deposits. Ozone-protecting CFC replacements have dumped 335,500 tonnes of persistent TFA chemical across Earth since 2000, turning a planetary win into a lingering toxic legacy. Ozone hole patched, forever chemicals unlocked: We fixed the sky’s sunburn… pic.twitter.com/s4j1yda4Sf

Para estimar a dimensão do problema, os pesquisadores utilizaram modelos de transporte químico. Esse tipo de ferramenta simula como os poluentes se deslocam pelo ar, reagem com outras substâncias e acabam sendo removidos da atmosfera. No caso do TFA, ele pode retornar à superfície por meio da chuva – configurando a chamada “chuva química” – ou se depositar diretamente no solo e na água.

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