Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 28 de maio de 2026 · 2 min de leitura ·

Marte teve oceano por mais de 1 milhão de anos, revela pesquisa

Marte teve oceano por mais de 1 milhão de anos, revela pesquisa

Pesquisadores da Universidade de Pequim encontraram a evidência mais precisa até hoje de que Marte abrigou um oceano estável por um período considerável. Analisando dados do rover chinês Zhurong, a equipe do Dr. Yan Li identificou um anel de óxidos de manganês na borda da bacia Utopia Planitia – uma assinatura química semelhante às “marcas de banheira” deixadas por lagos rasos na Terra. A descoberta foi publicada na revista Nature Communications.

O padrão observado é revelador: a concentração de manganês aumenta com a altitude, subindo de 2,7% nos pontos mais baixos para 7,4% cerca de 9 metros acima. Esse gradiente se forma naturalmente quando o manganês dissolvido em águas rasas e ricas em oxigênio se oxida na interface entre água e ar, depositando-se nas margens. Quanto mais tempo o lago permanece, mais espesso o anel mineral.

A equipe usou a taxa conhecida de conversão do manganês dissolvido em óxido sólido – um processo que funciona como um relógio geológico. Combinando essa taxa com a espessura do anel de manganês, os cientistas estimaram que o oceano persistiu por aproximadamente 0,8 a 1,5 milhão de anos. O corpo d’água existiu durante o período Hesperiano, entre 3,7 e 3,4 bilhões de anos atrás, e tinha entre 150 e 400 metros de profundidade – mais raso do que se supunha anteriormente.

O oceano desapareceu quando erupções vulcânicas do monte Elysium cobriram grande parte do fundo marinho com lava. O manganês, porém, resistiu: suas concentrações permanecem visíveis da órbita, oferecendo um alvo concreto para futuras missões.

A identificação dos óxidos de manganês não foi trivial. Os minerais formam películas finas e irregulares que dispersam a luz de forma complexa, escapando às análises tradicionais. Para superar o desafio, a equipe desenvolveu uma rede neural chamada SCANet, treinada com 13.742 leituras infravermelhas de amostras laboratoriais que simulam o solo marciano. Em colaboração com a Universidade Beihang, os pesquisadores processaram mais de 5,7 milhões de medições do Zhurong e de orbitadores europeus e americanos. As previsões da IA coincidiram com as leituras químicas independentes do instrumento laser do rover.

O período de cerca de um milhão de anos é mais do que suficiente para o surgimento da química básica da vida. Na Terra, os primeiros micróbios surgiram há aproximadamente 3,4 bilhões de anos – justamente na mesma época em que o oceano marciano existia. Modelos atmosféricos do Marte primitivo indicam episódios de aumento de oxigênio durante a era Hesperiana, criando as condições exatas necessárias para a oxidação do manganês.

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