
Um artigo publicado na revista PLOS One sugere como o degelo do permafrost em Svalbard, no Oceano Ártico, está revelando restos humanos enterrados entre 200 e 400 anos atrás. Conhecido como “Ponta dos Cadáveres”, o local expõe esqueletos de baleeiros europeus, ajudando pesquisadores a entender a vida desses trabalhadores e os efeitos da crise climática na preservação arqueológica.
O interesse europeu pelo arquipélago de Svalbard começou ainda no fim do século XVI. Em 1596, o explorador holandês Willem Barentsz avistou Spitsbergen, a maior ilha da região. Pouco depois, a área passou a atrair atenção devido à abundância de baleias, animais valorizados principalmente pela gordura, usada na produção de óleo para iluminação e como lubrificante.
A caça às baleias também estava ligada a produtos de alto valor na época, como o âmbar-gris, substância formada no sistema digestivo desses animais. Pesquisadores ressaltam que essa atividade deve ser entendida dentro do contexto do período histórico, quando o óleo de baleia era essencial para iluminação e lubrificação, além de outras partes do animal serem usadas na indústria têxtil.
A exploração comercial na região começou de forma mais organizada em 1612. Em poucas décadas, a caça se expandiu rapidamente pelo Atlântico Norte, envolvendo embarcações de várias nações europeias. As baleias passaram a evitar áreas costeiras, forçando os caçadores a migrar para águas mais distantes. No auge da atividade, centenas de navios operavam simultaneamente na região durante o verão ártico.
Esse crescimento levou à criação de assentamentos temporários em Svalbard. Um dos mais conhecidos foi Smeerenburg, fundado em 1619, cujo nome significa “Cidade da Gordura”. Outro local importante é Likneset, a “Ponta dos Cadáveres”, uma área costeira onde baleeiros mortos eram enterrados. Com o tempo, esses espaços tornaram-se cemitérios improvisados, marcados pelas condições extremas do Ártico.
Com o avanço do aquecimento global, o degelo do permafrost passou a expor esses sepultamentos. Ossadas que permaneceram preservadas por séculos agora vêm sendo descobertas pela erosão costeira. Esse processo permitiu que pesquisadores como a arqueóloga Lise Loktu, do Instituto Norueguês de Pesquisa do Patrimônio Cultural (NIKU), e a antropóloga forense Elin Therese Brødholt, do Hospital Universitário de Oslo, estudassem diretamente os restos humanos e reconstruíssem aspectos da vida e da morte desses trabalhadores.
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