
Os ciclones tropicais estão entre os fenômenos meteorológicos mais destrutivos do planeta, mas seu papel no ciclo global do carbono sempre foi controverso: eles ajudam a liberar ou a absorver dióxido de carbono (CO₂) dos oceanos? Agora, uma equipe internacional de pesquisadores conseguiu quantificar essa contribuição pela primeira vez, usando dados diários de fluxo de carbono entre o ar e o mar. A conclusão, publicada na Nature Geoscience, é que os ciclones tropicais atualmente emitem mais carbono do que absorvem — mas essa emissão está caindo rapidamente. E, se as emissões humanas de CO₂ continuarem altas, o papel dos ciclones pode se inverter já por volta de 2035, transformando-os em sumidouros líquidos de carbono, com consequências graves para a acidificação dos oceanos.
Os oceanos absorvem atualmente de 20% a 30% do CO₂ emitido pela humanidade. Os ciclones tropicais, com seus ventos intensos, perturbam a camada superior do mar de forma drástica, mas entender seu efeito líquido era difícil devido à escassez de medições diretas durante as tempestades.
A nova pesquisa sintetizou observações de várias fontes para construir um conjunto de dados diários do fluxo global de CO₂ na interface ar-mar. Os resultados são claros:
O motivo da queda é o aquecimento global. Com o aumento da temperatura, a superfície do oceano aquece mais rápido do que as camadas mais profundas, criando um gradiente vertical mais acentuado. Ciclones de mesma intensidade provocam agora um resfriamento mais intenso da superfície (as chamadas “esteiras frias”), que podem durar semanas. Esse resfriamento aumenta o desequilíbrio de carbono na interface ar-mar e faz com que o oceano absorva mais CO₂ após a passagem da tempestade, compensando parte da emissão.
Se as emissões antropogênicas de CO₂ permanecerem elevadas, os modelos indicam que os ciclones tropicais poderão inverter seu papel por volta de 2035. Em vez de liberar carbono, eles passarão a causar absorção líquida pelos oceanos. Isso soa como uma boa notícia (mais captura de carbono), mas na verdade é preocupante: a absorção extra de CO₂ aceleraria a acidificação dos oceanos, com impactos diretos sobre a química da água do mar e a redução de habitat para espécies marinhas.
O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos EUA (NSF) e do Centro Helmholtz GEOMAR para Pesquisa Oceânica de Kiel, na Alemanha.
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