
Um experimento recente com um bonobo chamado Kanzi ajudou a ampliar o debate sobre os limites da cognição animal. Em um ambiente controlado, o macaco participou de uma espécie de “brincadeira de faz de conta”, escolhendo corretamente entre copos com suco real e fictício – um comportamento que, até pouco tempo, era considerado exclusivo de humanos.
O estudo, conduzido em 2024 e publicado na revista Science, investigou a capacidade de imaginação em grandes primatas. Em um dos testes, Kanzi acertou 34 de 50 tentativas ao identificar qual copo “imaginário” ainda continha líquido. Em outra atividade, escolheu corretamente o recipiente com suco verdadeiro em 14 de 18 ocasiões. Para os pesquisadores, os resultados indicam que o animal conseguia lidar com representações mentais além da realidade – o tal “faz de conta”.
“Parece ser algo recorrente em nossa área: as pessoas apresentam razões pelas quais os humanos são especiais e únicos, e então cientistas como eu testam essas razões e descobrimos que, na verdade, talvez não sejamos tão especiais assim”, afirmou a psicóloga Amalia Bastos, autora principal do estudo. “Os animais também são capazes de representações secundárias ou imaginação”.
A pesquisa faz parte de um conjunto crescente de evidências que aproximam o comportamento dos grandes símios ao humano. Nas últimas décadas, esses animais já demonstraram habilidades como uso de ferramentas, reconhecimento no espelho, comunicação por símbolos e construção de vínculos sociais complexos. Mais recentemente, estudos avançaram para aspectos mais abstratos, como memória de longo prazo, cultura e teoria da mente – a capacidade de compreender que outros indivíduos têm pensamentos e intenções próprios.
Segundo o cientista cognitivo Christopher Krupenye, o entendimento sobre essas habilidades evoluiu rapidamente. “Nas últimas décadas, vimos descobertas transformadoras vindas de diversos grupos de pesquisa diferentes, que apontam para a ideia de que chimpanzés e outros primatas são extremamente sensíveis aos seus parceiros sociais”, disse.
Um exemplo dessa sofisticação cognitiva está na capacidade de rever crenças com base em novas informações. Em um experimento com chimpanzés, os animais foram levados a escolher entre duas opções com base em pistas iniciais e, posteriormente, tiveram acesso a evidências mais claras. Diante disso, muitos mudaram sua decisão – um comportamento associado ao raciocínio racional. “Se você sustenta uma determinada crença por um certo motivo, e então descobre que seu motivo está errado, você deveria, na verdade, abandonar essa crença”, explicou a pesquisadora Hanna Schleihauf.
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