Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 20 de fevereiro de 2026 · 2 min de leitura ·

Tubarão é registrado pela primeira vez na Antártida

Tubarão é registrado pela primeira vez na Antártida

As águas escuras e geladas que cercam a Antártida guardaram um segredo por séculos, mas que acabou de ser revelado por uma câmera submarina. Pesquisadores do Minderoo-UWA Deep-Sea Research Centre filmaram, pela primeira vez, um tubarão-dorminhoco nadando lentamente a 490 metros de profundidade nas Ilhas Shetland do Sul, próximo à Península Antártica. O avistamento, ocorrido em janeiro de 2025, quebra uma regra não escrita da biologia marinha.

“Descemos até lá sem esperar ver tubarões porque existe uma regra geral de que não se encontram tubarões na Antártida”, afirmou Alan Jamieson, diretor fundador do centro de pesquisa sediado na Universidade da Austrália Ocidental à AP. “E nem é um pequeno. É um baita tubarão. Esses bichos são tanques”, completou, referindo-se ao exemplar robusto, com comprimento estimado entre 3 e 4 metros.

O registro ocorreu a uma profundidade onde a temperatura da água beirava os 1,27°C — um ambiente considerado inóspito para tubarões, que dependem de movimentos constantes para respirar e são mais comuns em mares temperados e tropicais. A câmera também flagrou uma raia, parente distante dos tubarões, imóvel no fundo do mar, aparentemente indiferente à passagem do visitante inesperado. Diferente do tubarão, a presença da raia já era conhecida pelos cientistas.

Jamieson afirmou não ter encontrado nenhum registro anterior de tubarão no Oceano Antártico, definido como a região abaixo da latitude de 60 graus sul. Peter Kyne, biólogo conservacionista da Universidade Charles Darwin, corroborou: “Isso é ótimo. O tubarão estava no lugar certo, a câmera estava no lugar certo e eles conseguiram essas imagens incríveis. É bastante significativo.”

Duas hipóteses principais competem para explicar o achado. A primeira é que as mudanças climáticas e o aquecimento dos oceanos estejam empurrando espécies para águas mais frias do Hemisfério Sul. No entanto, Kyne pondera que há poucos dados sobre alterações de distribuição perto da Antártida devido ao isolamento extremo da região.

A segunda hipótese, defendida por Jamieson, é que os tubarões-dorminhocos — conhecidos por seu metabolismo lento — sempre estiveram lá, mas passaram despercebidos. A população seria escassa e difícil de detectar, concentrando-se em uma camada específica do oceano. O tubarão filmado mantinha-se a cerca de 500 metros de profundidade, onde uma camada de água ligeiramente mais quente se sobrepõe a massas densas e geladas, criando um refúgio térmico.

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