Helena Ignez e Neville D

"Não sou maldito, sou bem aventurado", afirmou o diretor de A Dama do Lotação. O cineasta também classificou a Lei Rouanet como "a morte do artista". Ignez destacou que as ideias de esquerda são uma característica indissociável da vertente artística.
A diretora e atriz Helena Ignez e o diretor Neville D'Almeida debateram o cinema marginal, vertente do cinema brasileiro da qual são ícones na tarde da última quinta-feira (09). A conversa, aberta ao público, fez parte do 39º Festival Guarnicê de Cinema e foi realizada na na Casa do Maranhão, no Centro Histórico de São Luís.
"Quando eu penso em cinema marginal eu penso no nome marginal", disse Ignez, abrindo o bate papo com público. "É um orgulho ser do cinema marginal. Graças a Deus fomos marginais. Ao mesmo tempo, esse cinema marginal era como uma pecha, jogada pela direita, que impedia a gente de ter acesso a melhores produções. Ser marginal era realmente ser herói", afirmou a realizadora, citando Hélio Oiticia. A diretora compete na mostra principal do Festival Guarnicê deste ano com seu mais recente longa-metragem, Ralé.
A cineasta, que é viúva do relevante diretor Rogério Sganzerla, fez questão de situar politicamente a vertente artística que representou tão bem em suas colaborações o marido em filmes definidores como Copacabana Mon Amour, A Mulher de Todos e O Bandido da Luz Vermelha. "É um cinema que se afirma na esquerda, no pensamento de esquerda", disse, pontuando que prioriza retratar as minorias nos filmes que realiza desde que estreou na função em Canção de Baal.
Neville pontuou que, por não contar com o apoio da elite artística, o cinema marginal muitas vezes foi tomado como um cinema maldito. Ele também falou sobre o sofrimento de ter sido censurado reiteradas vezes durante os anos de chumbo da ditadura militar. Por causa disso, pelo menos cinco dos filmes que Neville realizou nunca foram exibidos. Apesar de todas as dificuldades que essa geração enfrentou, o diretor, homenageado do ano Festival Guarnicê, rechaçou o estigma e afirmou, orgulhoso: "Não sou maldito, sou bem-aventurado".
Um dos temas mais centrais e recorrentes na conversa foi o valor da amizade entre cineastas, produtores e demais envolvidos na produção de um projeto cinematográfico. "É muito importante a amizade entre artistas. Isso torna o filme melhor", pontuou Neville, que também ressaltou que o estilo de produção dos filmes marginais era marcado por uma troca e um afeto muito grande entre os envolvidos. "Arte serve para nos amarmos."
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