Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 6 de março de 2024 · 2 min de leitura ·

Afinal, nós estamos ou não no Antropoceno?

Afinal, nós estamos ou não no Antropoceno?

No imenso livro da história da Terra, cada capítulo tem seu próprio enredo. O Triássico trouxe os dinossauros, o Paleogeno testemunhou os mamíferos e o Pleistoceno abraçou eras glaciais. Agora, há quem diga que estamos vivendo o período Antropoceno: a era moldada pela humanidade. Isso, no entanto, ainda levanta dúvidas entre a comunidade científica.

Após quase 15 anos de debates acalorados, um comitê de especialistas rejeitou, por maioria considerável, a proposta de declarar o início do Antropoceno. Segundo a linha do tempo geológica atual, estamos no Holoceno desde há 11.700 anos, marcando o recuo das grandes geleiras. Adotar o Antropoceno significaria reconhecer que as mudanças geológicas recentes, causadas pela humanidade, são profundas o suficiente para encerrar o Holoceno.

Isso teria um impacto significativo, moldando a linguagem usada em livros didáticos, pesquisas e museus em todo o mundo. A mudança também influenciaria a compreensão científica do presente, que ainda está em evolução, por gerações e talvez milênios.

No entanto, a disputa não se limita à relevância do Antropoceno, mas também ao seu início preciso. Segundo uma definição anterior, o Antropoceno teve início no meio do século 20, com os testes de bombas nucleares que espalharam radioatividade pelo mundo. Membros do comitê, no entanto, consideraram essa definição muito restrita, negligenciando eventos cruciais como o início da agricultura, a Revolução Industrial e a colonização das Américas e Austrália.

“O impacto humano vai muito mais fundo no tempo geológico”, afirma Mike Walker, cientista da Terra e professor emérito da Universidade do País de Gales Trinity Saint David. Em entrevista ao jornal The New York Times, ele explica que ignorar eventos históricos importantes seria subestimar o verdadeiro impacto humano no planeta.

Após a votação do comitê, desfavorável à proposta do Antropoceno (12 contra 4, com duas abstenções), ainda não está claro se os resultados são conclusivos ou sujeitos a contestação. O presidente do comitê, Jan A. Zalasiewicz, apoiou a canonização do Antropoceno, mas mencionou “questões processuais” que podem ser consideradas.

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