Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 11 de fevereiro de 2026 · 2 min de leitura ·

Peixes mutantes desenvolveram mesmas modificações em locais diferentes

Peixes mutantes desenvolveram mesmas modificações em locais diferentes

Há milhões de anos, nos mares gelados que cercam a Antártida, uma linhagem de peixes começou a fazer algo inédito: eles simplesmente desligaram os genes responsáveis pela produção de glóbulos vermelhos e hemoglobina, tornando seu sangue transparente como água. Por décadas, acreditou-se que este fosse um caso isolado — uma adaptação tão extrema e improvável que dificilmente poderia ter ocorrido em outro lugar. Estava errado.

Pesquisadores descobriram que os peixes-macarrão (Salangichthys microdon), pequenos habitantes de águas temperadas e tropicais que se estendem do Vietnã à Rússia, também nadam com sangue incolor. Mas, ao contrário do que se poderia supor, eles não herdaram essa característica de um ancestral comum com os peixes-gelo-preto (Chaenocephalus aceratus). A perda dos glóbulos vermelhos aconteceu de forma independente e por mecanismos genéticos radicalmente diferentes, um fenômeno que os biólogos chamam de evolução convergente — e que acaba de ganhar um de seus exemplos mais espetaculares.

A equipe liderada por H. William Detrich, da Northeastern University, já havia demonstrado que os peixes-gelo perderam blocos inteiros de genes da hemoglobina em um evento catastrófico de eliminação genômica. Quando Detrich e seus colaboradores chineses sequenciaram 11 espécies de peixes-macarrão, esperavam encontrar um padrão semelhante. Em vez disso, encontraram assinaturas moleculares completamente distintas.

Os peixes-macarrão não perderam os genes da hemoglobina; eles os mantiveram, mas carregam uma série de mutações menores e independentes que impedem a produção de proteínas funcionais. É como se dois arquitetos recebessem a mesma encomenda — construir uma casa sem janelas — e um deles decidisse remover todas as paredes, enquanto o outro simplesmente vedasse cada abertura com tijolos.

“Descobrimos que pode haver mais espécies do que pensamos que não dependem de glóbulos vermelhos”, disse Detrich para a instituição. A implicação é profunda: o sangue branco não é uma excentricidade polar, mas um experimento evolutivo que pode surgir sempre que as condições permitirem.

A ausência de glóbulos vermelhos impõe limitações severas. Sem hemoglobina para transportar oxigênio, os peixes precisam de soluções de engenharia corporal para sobreviver. Os peixes-gelo contam com águas ricas em oxigênio dissolvido — uma vantagem do frio polar — e desenvolveram corações aumentados, maior volume sanguíneo e redes de vasos mais densas.

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