
Era uma viagem de caminhão como tantas outras pelas estradas da Suíça. Só que, no compartimento traseiro, em vez de mercadorias comuns, viajava uma das substâncias mais raras e voláteis do Universo: antimatéria. Pela primeira vez, cientistas conseguiram transportar antiprótons para fora do ambiente controlado do laboratório sem que eles se aniquilassem no caminho.
O feito histórico aconteceu no CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, perto de Genebra. Cerca de 100 antiprótons foram cuidadosamente encapsulados em um dispositivo batizado de “armadilha de antiprótons transportável” e percorreram quatro horas de estrada dentro de um contêiner especial acoplado a um caminhão. Nenhum deles se perdeu — um triunfo da engenharia diante da natureza notoriamente frágil da antimatéria.
A antimatéria é o oposto da matéria comum. Se um antipróton tocar em um próton — mesmo que por uma fração de segundo — os dois se aniquilam instantaneamente, liberando um clarão de energia pura. Para evitar esse destino, os pesquisadores recorreram a uma tecnologia desenvolvida no próprio CERN: uma caixa cúbica de cerca de 1 metro de lado equipada com ímãs supercondutores resfriados a -269°C.
Dentro da caixa, os antiprótons ficam suspensos no vácuo, mantidos no lugar por campos magnéticos tão precisos que nunca tocam as paredes internas — que, ironicamente, são feitas de matéria. “No momento em que esses prótons de antimatéria entram em contato com a matéria normal, eles se aniquilam. Simplesmente desaparecem em uma nuvem de luz. O principal desafio era impedir que isso acontecesse”, explicou Alan Barr, professor da Universidade de Oxford, ao site da instituição.
O teste de quatro horas foi uma prova de conceito. “Ela demonstra que, no futuro, poderemos realizar esses movimentos rotineiramente e estudar a antimatéria em detalhes”, disse Barr.
A antimatéria é uma peça central em um dos maiores enigmas da física moderna: por que o universo como o conhecemos existe. Segundo a teoria, o Big Bang deveria ter produzido quantidades iguais de matéria e antimatéria. Se assim fosse, elas teriam se aniquilado mutuamente, deixando o universo vazio de partículas. Algo, portanto, deve ter desequilibrado a balança a favor da matéria — e ninguém sabe o quê.
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