Julia Monteiro
Julia Monteiro
Ciência e Espaço · 15 de maio de 2026 · 3 min de leitura ·

Cientistas identificam acelerador oculto no derretimento do gelo na Antártida

Cientistas identificam acelerador oculto no derretimento do gelo na Antártida

O derretimento das plataformas de gelo da Antártida não apenas eleva o nível do mar, mas também altera a circulação oceânica de forma a acelerar ainda mais o próprio derretimento. É o que aponta um novo estudo publicado na Nature Geoscience pela cientista Madeleine Youngs, da Universidade de Maryland. A descoberta sugere que os alertas sobre a elevação do nível do mar podem ser conservadores, pois os modelos atuais ignoram esse ciclo de retroalimentação.

A chave do processo está na temperatura e densidade da água. Naturalmente, a água fria e densa afunda e forma uma barreira próxima ao fundo do oceano, impedindo que correntes profundas e mais quentes atinjam a base das plataformas de gelo. Quando a água do degelo — doce e mais leve — entra no oceano, ela dilui e enfraquece essa barreira fria. Com a barreira rompida, a água quente consegue chegar ao gelo e derretê-lo por baixo. Mais derretimento gera mais água doce, que enfraquece ainda mais a barreira, em um ciclo que se retroalimenta.

“É um ciclo de retroalimentação positiva, onde mais derretimento leva a água mais quente chegando ao gelo, o que causa ainda mais derretimento”, explicou Youngs. “Se continuarmos agindo como de costume, é bem possível que alcancemos o ponto de inflexão climático mais cedo do que imaginamos.”

O estudo revela que o efeito varia conforme a região. No Mar de Weddell, o ciclo positivo se amplifica perigosamente: o derretimento a montante erode a barreira fria e permite a entrada de água quente, acelerando o processo. Já na Península Antártica Ocidental e no Mar de Amundsen, onde fica a chamada “Geleira do Apocalipse” (Thwaites), ocorre o oposto: a água do degelo que flui de áreas mais altas forma uma barreira fria que protege temporariamente o gelo das correntes quentes.

“Nosso estudo sugere que essas regiões — geralmente consideradas as mais vulneráveis — estão, na verdade, mais protegidas do que pensávamos, a curto prazo, devido a esse ciclo de retroalimentação negativa”, disse Youngs. “Mas essa proteção depende de um derretimento maciço a montante, e esse derretimento a montante tem suas próprias consequências graves para o nível do mar.”

Atualmente, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) trata o derretimento das plataformas de gelo como um fator fixo em suas projeções, não como um processo interativo que altera o próprio ambiente oceânico. Youngs argumenta que essa omissão pode levar a subestimativas significativas. O IPCC estima que, em cenários de altas emissões, o derretimento do gelo antártico pode contribuir com 28 a 34 centímetros adicionais de elevação do nível do mar até 2100. Qualquer aceleração além disso expandiria o alcance de tempestades e inundações permanentes em cidades costeiras de Miami a Mumbai, afetando mais de 680 milhões de pessoas que vivem em zonas baixas.

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