
Os geólogos têm uma espécie de “diário íntimo” da Terra: testemunhos de sondagem — cilindros de sedimento e rocha que guardam a memória física de milhões ou bilhões de anos. Na Austrália, um conjunto desses arquivos subterrâneos, formado por argilito, acaba de entregar uma revelação crucial sobre a evolução da vida complexa. Um estudo publicado na revista Nature mostra que fósseis de eucariotos datados de 1,4 a 1,75 bilhão de anos atrás — os mais antigos já encontrados — só aparecem em camadas que registravam a presença de oxigênio.
A biologia classifica todos os seres vivos em dois domínios fundamentalmente distintos. De um lado, os procariontes (bactérias e arqueias): células simples, sem núcleo, sem mitocôndrias, em geral unicelulares. Eles são os donos do planeta em quantidade — são cerca de cinco nonilhões, um número tão astronômico que superaria o peso de toda a Terra medido em colheres de chá por um fator de mil. Surgiram há cerca de 4 bilhões de anos e reinaram sozinhos por pelo menos 2 bilhões de anos.
Do outro lado estão os eucariotos — o grupo que inclui animais, plantas, algas e fungos. Suas células são muito mais complexas: possuem núcleo, organelas e, na imensa maioria dos casos, dependem de oxigênio para obter energia (respiração aeróbica), que fornece o combustível necessário para a vida sofisticada.
O problema é que a Terra primitiva não era nada oxigenada. Até cerca de 2,5 bilhões de anos atrás, o oxigênio atmosférico era praticamente zero. Mesmo após o Grande Evento de Oxidação, o nível do gás permaneceu em torno de 1% do que respiramos hoje. “Nós não conseguiríamos sobreviver ali”, resume Susannah Porter, professora da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB) e autora principal do estudo, ao The Conversation.
Se os eucariotos precisam de oxigênio, como teriam surgido em um mundo tão pobre do gás? Alguns pesquisadores propuseram que os primeiros eucariotos poderiam ter sido anaeróbicos, usando hidrogênio como fonte de energia. A nova pesquisa, no entanto, enterra essa hipótese.
A equipe analisou núcleos de argilito armazenados no Serviço Geológico do Território do Norte, em Darwin. Essas rochas contêm os fósseis de eucariotos mais antigos do mundo, com até 1,75 bilhão de anos. Os pesquisadores trituraram as amostras, dissolveram-nas e isolaram os resíduos orgânicos. Sob o microscópio, identificaram mais de 12 mil fósseis microscópicos.
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